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12.10.10

Pôr-do-sol de hoje / Today's sunset

For an english translation (a little rough), click here.

É engraçado e fascinante pensar que vivemos num mundo onde metade tudo é belo e fluido, tudo é paz e suavidade, cores e matizes sempre harmônicos e espectrais, dança de enormes volumes delicados e leves, onde tudo relembra o infinito e a grandeza, as imensidões e a infinitude do tempo, o lento passar de milênios, bilhões de anos, onde tudo relembra a liberdade e a imensidão serena... E metade são estruturas sólidas, gastas e cansadas, tentando resistir à transformação - densas, confusas e complexas, geométricas, metálicas e rígidas, reflexo da mão, jeito de pensar e necessidade do homem, reflexo da sua necessidade de partir de coisas simples, para não se perder na complexidade que é a sua tendência.
Hoje ventou muito aqui no bairro e agora ao pôr-do-sol está fazendo um céu espetacular, de um amarelo alaranjado dramático e nuvens suaves, finas e compridas, como verdadeiras estradas no céu, deslizando lentamente na direção do vento, não à toa a mesma direção do seu comprimento. Do apartamento onde estou tem-se uma visão ampla do bairro e até de bairros distantes (é um lugar alto aqui), numa transição gradual de apenas casas para altos prédios, já perto do horizonte. Olhando à direita, no térreo/terraço/playground de um prédio vizinho, uma espécie de pequeno jardim suspenso, com grama, piscina e portas de vidro, banhado por tênues lâmpadas bem amarelas, crianças brincam e correm pra lá e pra cá, interagindo entre si numa dança de coreografia caótica, mas com ritmo bem definido, se você observar mais longamente. Mães, paradas em pé, em volta, observam-as atentas, movendo apenas as cabeças, praticamente atadas ao vaivém do pequeno turbilhão infantil.
Daqui, olhando as crianças, depois olhando para o céu, depois para as crianças de novo, depois para o céu - calmamente, contemplando-os sem pressa... E respirando, tragando profundamente esse vento frio porém mais puro que o normal, com certo cheiro de água e de árvores, que chega aqui na minha janela, e ouvindo os gritos e risadas das crianças (um som que sempre me chamou a atenção em vários lugares onde morei e que sempre me trouxe uma sensação mista de paz, harmonia, felicidade, saudosimo e um certo tédio)... Daqui, contemplando esse espetáculo silencioso de um pequeno pedaço comum porém mágico do cosmos, senti fortemente o quanto o ser humano é breve e intenso em sua existência. O quanto nós, que somos no fundo como aquelas crianças tão entretidas com suas vontades e desejos imediatos e incessantes, não prestamos atenção, não compreendemos, não acompanhamos e não entramos em comunhão com esse lento e silencioso - e majestoso - transcorrer do universo. Nem sequer por exemplo com essa outra metade do nosso entorno, por exemplo, que são o céu e as nuvens (e estrelas), e o seu jogo de luzes, vapores, gases, cores, em diversas escalas, que nunca se repetem. Mas ao mesmo tempo, essas crianças, suas formas e movimentos, e o ambiente que as cerca, é tão belo e mágico quanto as nuvens. Tão dignas de uma contemplação demorada quanto. Nos entediamos ao olhar longamente para o céu. Mas será que as nuvens se entediariam ao olhar longamente para uma cidade? Concordo que tem dias que o céu está bem limpo (o que é bom para sair de casa), mas monótono. Mas hoje o céu estava num daqueles dias onde milhões de detalhes de nuvens intrincadas e espectros de cores e névoas no horizonte levam no mínimo alguns minutos para serem apreciados.
Os gritos misturados das crianças e essa sensação de paz me fizeram lembrar de um dia, há quase um ano quando, voltando da praia, tive um "insight" (no caso, uma visão ampla e instantânea de uma coisa, muito mais ampla, instântanea e clara do que o normal, uma espécie de elucidação forte). Tinha ido sozinho à praia e passado a tarde toda nadando, descansando na areia, nadando de novo... Chegando em casa, tomei um banho e deitei no escuro, meio exausto e muito relaxado. Pensei em ligar o som e ouvir um pouco de Yardbirds (o cd já estava no som, era só dar play), mas estava tão relaxado que não sei porquê preferi "curtir a stasis" (o prazer estático) do silêncio. E estava curtindo, quando comecei a prestar atenção, sem querer, num choro forte de bebê. O som cresceu, como é normal ao prestarmos atenção num som específico em meio a vários, e continuou crescendo. Eu estava deitado, naquele estado entre o sono e a vigília, uma espécie de torpor e cessação dos pensamentos.
De repente, como que trazidos ou estimulados por cada onda de choro do bebê, começaram a vir à minha mente um turbilhão de imagens que pareciam cenas do passado, de séculos atrás. Sequências e sequências de imagens de guerra e luta, de disputas, duelos até a morte, agressões, estupros, submissões violentas de pessoas mais fracas, batalhas, lutas e mais lutas. E era como um sonho: não era eu que estava tecendo, elaborando aquelas cenas conscientemente. Elas vinham, várias de vez, misturadas, instantaneamente. Eu só tentava não interromper esse fluxo, como quem tenta não acordar de um sonho bom, e tentava capturar o máximo que conseguia, como se estivesse vendo através da janela estreita de um ônibus deslocando-se rápido, as cenas do lado de fora.
E o bebê continuava chorando, e seu choro parecia totalmente ligado às imagens (imagens em movimento, de muita ação). E as cenas pareciam cada vez mais antigas, até parecerem pré-históricas. Homens se degladiando com facas de pedra, em roupas de lã e de pele. Então foi ficando mais nítido o único pensamento que tinha vindo à minha mente durante todo o choro do bebê: "essa é a condição humana". Essa é a essência do homem. É assim que ele vem ao mundo, chorando e gritando, desesperado e confuso, cheio de conflito. E ele passa a vida em conflito, se debatendo," chorando". Preso dentro do próprio corpo, incomodado com a própria condição, tentando se acostumar a isso. Enquanto houver o ser humano haverão guerras desnecessárias, disputas por qualquer besteira, intrigas, violações, violências, assassinatos, atentados, estupros (físicos e morais), lutas, ódios, submissões, execuções, tiroteios, humilhações em público. Não que só vá haver isso, mas isso sempre haverá. Isso faz parte da essência do ser humano. Se você observar cavalos por um longo tempo, começará a entender a sua essência, a essência da "condição eqüina", ou melhor, da condição "hípica" (para não confundir com outros eqüinos). Se observar macacos, começará a entender melhor o que é ser um macaco, a "dura condição símia". Vale à pena observar seres humanos de longe, sem ser notado, durante um longo tempo, ou em diferentes ocasiões, quando for possível, para entender um pouco mais esse animal tão singular. Contemplá-los sem preconceitos, sem querer ver nada, nem essas coisas que escrevi acima. Nada. Só prestando atenção.
Ao final desse "transe" que tive, o que me veio muito claramente foi uma forte compreensão para com o ser humano. Uma grande compaixão por todos nós. Porque realmente é um pobre coitado o ser humano e essa sua dura condição, que ele não escolheu. Mesmo os mais escrotos, ainda assim são coitados. São só egoístas sem valores e sem referências morais que estão tentando se virar como podem desde que foram jogados na vida.

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NOTA: Não foram só imagens de lutas e violência que me vieram à mente naquela hora. Foram como vidas inteiras passando por mim num flash, aceleradas. Mas estas cenas foram as que me chamaram mais a atenção, e também não quis fazer aqui um texto longo demais.

6 comentários:

prahalad disse...

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Giuliane Sampaio disse...

fico imaginando cada cor e textura ao ler algo assim..projetando uma imagem para cada palavra..são realmente palavras que naturalmente passam essa sensação espontânea do imaginário! :)

Athos Sampaio disse...

:-)
Legal!

Beijo, Giu!

vicsamp disse...

Também por mim passam essas mesma reflexãos tão bem descritas aqui por voce, quando postei isso no Facebook, lia o Livro Tibetano do Viver e morrer:

O que nasceu há de morrer,
O que foi reunido se dispersará,
O que foi acumulado há de se esgotar,
O que foi construído há de ruir,
E o que foi elevado há de baixar

Valeu Athão!

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