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29.9.09

Pequena reflexão (Just a little thought)

PEQUENA REFLEXÃO, MAS LONGA
E sem citações, nem bibliografia - me desculpem os acadêmicos, "my fault", "I'll take all the blame"
(acabei citando Kurt Cobain! Óia! Ahhh. Depois vou dar um jeito de citar outro filosófo que gosto muito: Bob Marley! :-)).

(I'll translate the text below to english as soon as I have time to do so. Sorry about it until them)

Como esse aqui é um espaço para publicação de trabalhos de design, feitos sob encomenda e restrições, mas também e principalmente de livres-criações e outras coisas "livres",
vou colocar aqui uma pequena reflexão. Nada demais, nada para ser levado muito a sério.
Vou começar me contradizendo e dizendo aliás, que acho que nenhuma reflexão que a gente pare pra fazer possa ser chamada de pequena.
E que acho que reflexão vem antes de trabalho. Ambos são complementares, mas acho que nos dias de hoje o desequilíbrio está deixando
a reflexão muito em desvantagem.

E que até se você trabalha sem refletir, sem momentos de meditação (não precisa ser transcendental, sentado em posição de lótus,
tô falando de parar um pouco e ficar calado pensando mesmo - já serve) e conscientização, você pode viver anos sem nem saber para quê está realmente
trabalhando, porquê, nem se está fazendo da melhor forma. Ou seja: vivendo apenas como uma engrenagem.

E a motivação dessa reflexão aqui é justamente o fato de que tenho trabalhado demais, sem interrupção e não tenho tido tempo suficiente, o tempo que
gostaria para pensar sobre a vida, meditar, filosofar, refletir sobre as coisas, sobre as pessoas, sobre os fatos passados e possibilidades para o futuro.
A sensação que me dá às vezes (exagerando a título de ilustração) é que a "era das máquinas", tão profetizada e temida pelo imaginário coletivo
nos filmes já começou. Porque apesar de toda a riqueza acumulada e gerada, todos os produtos manufaturados pelo homem, bilhões a cada segundo,
muitas pessoas continuam tendo que trabalhar insanamente, num ritmo que lembra o início da era industrial. E como se não bastasse esse frenesi no
ritmo de trabalho, há também um frenesi no ritmo e no volume de informação que recebemos a cada segundo (tô falando de internet, principalmente).
São dezenas de links de sites que te enviam por dia, dezenas de links para vídeos, para trabalhos de artistas novos que estão "bombando em alta", na moda
(e eu ainda cá no meu ritmo, ainda digerindo, admirando e apreciando o trabalho dos artistas que me impressionaram quando era adolescente, eu cá ainda
estudando maravilhado as suas obras e tentando decifrá-las). E o pior: são tantos links, tantas novidades, produções novas, criações que te enviam por
email que você às vezes acaba nem dedicando toda atenção, apreciação e REFLEXÃO a uma obra que acabou de ver, quanto ela mereceria. Já me vi em
certos dias passando rapidamente o olho por um curta de animação fascinante ou site de um desenhista fora-de-série. Passando rapidamente o olho! Imagine.
Isso é péssimo. Imagino que os artistas por trás dessas obras/produtos jamais quiseram ser vistos de forma "tão descartável". Não falo pelo ego deles, mas
pela dedicação e paixão que colocaram naquilo. No tempo que dedicaram àquilo.

Eu posso até entrar numas de me enganar e dizer pra mim mesmo que aguento esse volume de informação, e seguir lendo, dando um único "play" numa animação
sensacional, passando o olho sobre uma composição gráfica brilhante, ouvindo metade de uma música belíssima que nunca tinha ouvido, observando
por 5 segundos uma foto enigmática e maestral, "batendo o olho" numa filmagem de um dançarino ou dançarina lendária, lendo só 2 parágrafos de um manifesto
de um escritor vivido e sábio e fechando sem tempo de ler o resto...

Mas um efeito colateral certeiro e garantido disso é que eu não terei sido um receptor real daquela criação. Não terei assimilado, digerido,
compreendido ao menos uma parte razoável dela, me modificado por ela, crescido ou ampliado meus horizontes de alguma forma.
Cada uma dessas coisas, cada única coisa acredito que devíamos ficar dias e dias vendo e revendo. Se possível semanas, meses, anos. Claro que não sempre
ou exclusivamente (isso vai depender do grau de obsessão e compulsão de cada um), mas com frequência, interesse. Fidelidade.
Eu não me esqueço de quando soube certa vez que um grande professor meu de faculdade e um amigo muito legal, André Setaro (e excelente crítico e estudioso de cinema),
assistia Cidadão Kane toda semana ou todo dia, não lembro com exatidão a frequência. Mas achei isso muito legal. Isso bateu com a forma
como eu também me relaciono com as criações que vi e gostei. Não porque eu seja obcecado nem louco ou autista (não acho que seja, mas também não tem
o menor problema se eu for, hehehe), mas porque as criações em si pediam isso. Semanas, meses para serem compreendidas.
Compreendidas um pouco mais, melhor dizendo. Porque, por exemplo, alguns desenhistas de quadrinhos cuja obra acho fascinante, até hoje, depois de mais de 15 anos,
quando releio, depois de um tempo esquecidos na estante, sempre descubro cacetada de novas dimensões e "portas" para enriquecer a viagem na
narrativa ali diante de mim. Facetas que não tinha percebido antes, por imaturidade ou mera incapacidade de compreender tudo de vez num insight.

Usando o termo que um amigo de faculdade, Zé Falcon, costumava usar: minha preocupação é com o "trabalho alienado". O trabalho que você faz de forma repetitiva,
sem precisar pensar, como máquina. E isso combinado com um ritmo pesado de trabalho. E combinados com a falta de tempo para refletir, pensar sobre a vida e amadurecer.
Trabalhar sem parar, sem parar pra adquirir consciência e ampliar os horizontes, pra mim soa como, por exemplo, entrar na escola, chegar até uma certa série (oitava, por exemplo)
e seguir concluindo e cursando-a de novo em todos os anos seguintes.
Acho que o ser humano tem vida e inteligência demais para viver como uma engrenagem. Tem muita capacidade de criar para viver sempre repetindo. Não que precise sempre criar,
nem que a repetição não tenha sua utilidade. Mas a repetição vem depois, é só um meio para a fixação do processo, é metade da equação de um ofício.
Mas a real é que infelizmente, pela forma como as coisas estão estruturadas, as pessoas se vêem obrigadas a trabalhar pra caralho, a viver como um remador nas galés, porque
tudo é caro, tudo é pago, e pra piorar tudo ainda é exibido o tempo todo para despertar sua vontade pelo que é caro e pago. Como um chef, um cozinheiro dançando o dia todo na sua
frente com um frango assado "no bafo" numa bandeja e sorrindo e te chamando. E mesmo que o indivíduo não seja consumista, chegado a gastar, comprar e se atualizar, mesmo assim
a mera sobrevivência ainda é cara. Aluguéis, cartões de crédito, telefones, parcelas etc etc. São os seus senhores feudais exigindo a sua cota, a sua parcela nada pequena da colheita que
você trabalhou o ano todo como um condenado para obter.
Acho que algumas palavras/frases muito importantes estão em desuso, marginalizadas, e até associadas à preguiça:
Reflexão.
Equilíbrio.
Tempo.
Tempo para digerir as coisas novas (criações, resultado da expressão de indivíduos e suas sensibilidades).
Tempo para amadurecer idéias. Para que as informações novas amadureçam dentro de você e criem raízes e floresçam no seu subconsciente.
Tempo para estudar obras maestrais, clássicas.
Tempo para meditar sobre sua vida, dentro e fora de você, sobre os fatos e as pessoas. Para não repetir os mesmos erros, para não demorar de mudar o que pode ser mudado.

Pode ser que eu pense assim por ser baiano, precisar de mais tempo. Quem sabe. Não sei se é por causa disso, mas graças a deus sempre achei importante refletir.
Aquela hora antes de ir dormir, no escuro com os olhos fechados. Sem novos estímulos sensoriais atrapalhando a "análise dos dados" do dia que passou.
Falando informalmente: eu acho muito mal o cara ser encostado, preguiçoso, ficar vivendo às custas dos outros etc. Acho deplorável. Mas acho que ainda pior é o cara um belo dia levantar
da sua cadeira no trabalho, do seu pc, mac, T-1000, hal ou que máquina for, e perceber que a vida passou, ele está velho, e não fez nada do que planejou e SONHOU fazer.
Como já dizia aquela figurinha tão sábia, Buda, "equilíbrio". Acho que tá faltando equilíbrio no modo de vida de muita gente hoje. Inclusive no meu. Para ter esse equilíbrio tem muitos
ingredientes faltando. Alguns que sugiro são os citados acima. Com certeza você que está lendo deve ter outros. "Ou não", como diz Caetano.
Talvez seu ritmo de fruição, pensamento e
vida case perfeitamente com o ritmo insano da época online, conectada. Talvez você ache que uma música de Rachmaninov só precise ser escutada uma vez, Lawrence da Arábia assistido
apenas uma vez (ou nunca), O Clube da Luta e o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças só ver um pedaço já está bom, um trecho apenas de Heart-Shaped Box, ou nem isso.
Não tenho a pretensão de querer impôr nada aqui. Apesar de prolixo, esse texto é apenas uma reflexão. Uma pequena reflexão.
Pequena mesmo, para a idade que já estou.