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12.12.09

Pequena Tentativa de Entender Mais o Mar

Hoje fui à praia às 4h da tarde. Horário um pouco tarde demais, para o que em geral prefiro.
O sol já esfriando, mas ainda dava pra nadar.
É impressionante o poder da combinação mar-sal-sol-areia-horizonte-vento-ondas-pedras.
É uma experiência simples e ao mesmo tempo riquíssima furar as ondas revoltas quebrando no raso,
mergulhar, "pegar uns jacarés" (deslizar nas ondas com a palma da mão), mergulhar até o fundo, nadar
até as pessoas ficarem do tamanho de formigas na praia.

É uma experiência sensorial que começa pelo visual, com o sol quase ofuscando as vistas (os raios que
pingam nos meus olhos) e os raios que o sol derrama sobre o mar é como um saco de diamantes
derramado no chão: centenas de pontos cintilantes, tão brilhantes que parecem gotas de luz.
Gotas de mercúrio flutuando sobre as ondulações, sem afundar nem se misturar.
Ontem percebi que apesar do contraste das coisas diminuir em direção ao horizonte, as partes refletindo
muita luz continuam bem claras. Pelo menos na praia que eu vou. :-)
E a experiência continua intensa, agora sonora: as ondas quebrando no ouvindo, o "UOOOOOO" dos tubos
formando (nessa praia as ondas quebram grandes e em tubos bem-feitos no raso, praticamente na areia,
algumas pessoas ficam até com medo de entrar na água). Esse ronco dos tubos é demais,
é uma massagem praticamente, nos ouvidos.
É um som cheio, denso, um som de vento raspando em alguma coisa, ao mesmo tempo de ebulição, furor
de um líquido se despedaçando em partículas, cada uma também raspando no vento.
O som ambiente de pessoas conversando, rindo e o estampido leve das raquetes de frescobol enriquece
com uma espacialidade a mais. Se fechar os olhos, dá pra perceber de que lado vêm as vozes e onde cada
uma está mais ou menos.

Mergulhando, perde-se foco, mas ganha-se luz, luz difusa, e liberdade. É como voar. Só se toca o chão se
quiser. E os cortes brilhantes, as rachaduras da refração da superfície do mar sobre a pele torna ainda mais
bonita a visão. Parece que a luz está acariciando sua pele, te batizando.
Tudo fica limpo. É só luz e névoa até onde a vista alcança (nessa praia, não tem muitas pedras
aparentes no fundo em alguns trechos).
O espetáculo torna-se físico. O esforço de avançar, mergulhado, a cada braçada, ao mesmo tempo
cada vez mais tentando deslizar sem atrito, ficar mais como uma flecha.
(Não, eu não fumei nada, só estou descrevendo uma coisa que gosto e que já vivi milhões de vezes.
Tentando pelo menos. Tentando explicar racionalmente porque é uma experiência tão legal e mais completa
que ir num cinema, por exemplo, em termos de espetáculo sensorial).

Furar uma onda que veio formando grande demais também é muito legal. Uma espécie de comunhão com o
mar: uma forma de se curvar ante o seu poder e reverenciá-lo. Apesar de líquidas, as ondas têm um grande
poder, um poder de impacto, um poder que vem da sua dinâmica, energia cinética e dimensão. O poder da
coletividade das partículas (uma gota não derruba, milhares de gotas juntas, vindo girando e
desabando, podem fazer você voltar pra casa com a cara ralada - uma onda acho que seria um símbolo
bem legal para a democracia, hehehe).

Depois de umas braçadas, meio ofegante, volto pra areia pra descansar e tomar sol. Mais uma experiência
singular: o sal na pele parece que aumenta a sensação de o sol estar queimando a pele. Mais uma espécie
de batismo e purificação. Um banho, só que um banho de luz. Presto atenção nos grupos em volta: um
cara sozinho tocando violão, outro chega e senta ao seu lado para escutar (daqui, não escuto nada do
que ele toca, nada - talvez pelo vento, som das ondas e vento sibilando no meu ouvido ajudando a abafar
sua música). De outro lado, uns "playboys" conversam papos puramente pragmáticos e de reforço: "ô,
velho, colé!", "ah, aí não!", "só! e você disse o quê?", "rapá, se fosse eu...". São praticamente mantras de
tantas vezes que foram repetidas exatamente assim, essas frases. Já escutei-as com pouquíssimas
variações milhares de vezes desde que nasci.

É difícil enumerar todos os espetáculos: as ondas "entubadas" quebrando numa pedra imensa e tão plana que
mais parece uma mesa com uma toalha cujo pano cobre suas pernas. Em cima, reflete como um espelho,
na lateral, quando a onda se vai, deixa fios de água espumante escorrendo, cada vez menos espumante e mais
fina, como mini-cachoeiras.

Pegar um jacaré até o fim mesmo da onda, quebrando no seco, também: um certo estado interior de alerta, pra
não capotar, e ao mesmo tempo uma perda de chão e uns giros até ficar quase de cabeça pra baixo, dentro
do espumão da onda quebrando.

Nadar até o fundo. Cada dia tenho conseguido nadar mais, cada dia menos sedentário. Me lembro que já nadei
uma vez até muito longe (faz anos), tão longe que enxergava a praia da próxima enseada, depois da
ponta distante que avança sobre o mar. Algo ridículo se um atleta visse, mas um feito para um cara comum.
Sei lá, uns 100 metros mar adentro. Algo assim. Quanto mais longe, a praia fica mais legal. As pessoas
e casas na colina em frente à praia vão virando miniaturas.
A total falta de integração entre o estilo arquitetônico das casas ali fica cada
vez mais evidente. Casas coladas umas às outras, mas com estilo e "paleta de cor" totalmente variada.
Não é como um condomínio residencial. São casas feitas em épocas bem diferentes, parece.

Salvador parece que está ficando uma cidade estranha. Um boom de prédios sendo construídos, bairros inteiros
surgindo de vez, e cada vez mais carros. Muita mata virgem sendo derrubada pra fazer condomínios. Lugares
que quando eu era criança eram dunas, hoje estão cheias de casas num estilo estranho, feias, cafonas.
É triste, de verdade.
Uma obsessão por carros, por fazer tudo usando carro. Paraplégicos voluntários. Uma mania que parece coisa
de emergente, novo-rico. O status gira em torno do carro. A utilização e configuração do espaço é em função
de carros, invadida por carros. E tudo sempre engarrafado. Sempre teve isso, mas costumava ser menos assim.

Mas, felizmente, o que sempre foi a melhor coisa pelo menos parece que continua igual: o mar.
Algumas praias soube que estão quase impossíveis de frequentar, de tão cheias (nos fins-de-semana), mas
em algumas, esse "cinema interativo" que é o mar ainda é igual, graças a deus.

O mar.

Pra completar esse texto, percebendo que o mar é pra mim uma igreja, uma catedral gótica,
um templo zen-budista, um lugar pra me calar e contemplar, ir e voltar calado - sem exagero,
tenho um sentimento religioso toda vez que me silencio, silencio o fluxo de pensamentos para admirar,
escutar, cheirar, ver, tocar, empurrar e me cegar com o mar.
Falando secamente: semanas indo na praia quase todo dia. É uma obra de arte indescritível e dinâmica, viva,
forte, furiosa e delicada, leve ao mesmo tempo, e
que não sei porque, mas lava e cura a alma, um dia ainda vou entender o porquê disso - ...
Percebendo isso, aqui vai uma música de um criador fluido, livre, intenso e dinâmico como o mar
(e que música linda, conturbada e intensa, parece com a vida, com suas ondas de dentro
quebrando, quebrando na alma, e parece com o mar):



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Today I went to the beach at 4 pm. It's a late hour to go to the beach, a little later than I usually prefer.
Sun is getting colder, but it's still fine to swim.
It's amazing the power of this mix: sea-salt-sun-sand-horizon-wind-waves-rocks.
It's a simple and yet so rich experience to cut the waves breaking in the shallow, dive into them like an arrow,
just before they hit the dry sand, dive, "pick some alligators" (it's how we call here the act of gliding in the waves
using the palm of the hand to lead us), dive until reaching the deep section, swim until people get as small as
ants.

It's a sensory experience that starts visually, with the sun almost blinding the eyes (the rays which drip into my
eyes) and the rays which the sun pour over the sea is like a bag of diamonds spilled over the floor: hundreds of
shining spots, so bright that look like drops of light.
Drops of mercury floating over the waves, without sinking nor mixing.
Yesterday I noticed that, despite contrast dimishes towards the distance, towards the horizon, the bright spots
still look almost as bright as the close ones. At least in the beach I go here.
:-)
And the experience keeps its intensity, now a sound experience: the waves breaking in the ear, the tubes making
"WOOOOOO" (in this beach the weaves fall big and in smooth tubes in the shallow depth, practically in the dry
sand - some people don't even dare entering the water). This grumble from the pipes is awesome, it's practically
a massage in the ears.
It's a fuller sound, dense, a sound of wind grazing over something, at the same time a sound of something boiling,
the fury of a liquid smashing in hundreds of particles, each of them also being scratched by the wind.
The ambient sound of folks talking, laughing and the subtle pop of a rubber ball over rackets, enrich the experience
even more with a spatial quality. If I close my eyes, I can notice the direction of each voice and to some degree
their distance.

Diving, you lose focus, but you gain light, diffuse scattered light, and freedom. It's like flying. You only touch
the ground if you will. And the shiny cuts, the fractures of light from the refraction from sea surface over the skin,
makes the view even more beautiful. Looks like the light is fondling, caressing the skin, baptising me.
All is clear. Only light and fog where there's the eyes reach (in this specific beach, there's not much immersed
rocks in some areas).
The spectacle gets physical. The effort of advancing, immersed, at each arm move, at the same time trying to
glide without water resistance, each time more like an arrow.
(No, I didn't smoke anything, I'm only trying to think about and describe this experience, which I've lived so many
times, as I grew up living in front of beaches - at least trying to illustrate rationally, because it's so complete
as a sensory experience, maybe even more than going to see a movie in a theater).

Cut through, dive into a wave that was getting bigger and bigger, too big, is also very cool. A kind of communion
with the sea: a way of cringing in face of its power and enshrine it, worship it.
Despite being liquid, waves have a great power, a power from impact, a power from its dynamics, kinetic energy
and dimensions. A power born from their collective character (a drop won't knock you down, but millions of
drops together, coming in spinning streams and collapsing volumes, can make you go back home with a
grazed face - I guess a wave would be a great symbol for democracy, hehehe).

After some minutes swimming, kind of breathless, I go back to dry land, to rest and tan. Another unique
experience: the salt in the skin seems to amplify the feeling of sun burning the skin.
One more kind of baptism and purification. Like take a shower, but a shower pouring light.
I pay attention to the groups of people around: a guy alone playing guitar, another one come and sit close
to him to listen (from here, I can't hear it, nothing - maybe because of the wind, the sound of waves and the
wind hissing in my ear are muffling his music). In another side, some playboys chat, and their sentences are
kind of purely pragmatic and of masculinity reinforcement: "C'mon, man!", "Oh, No way, c'mon!", "Yeah, man,
and what you've told him back?" (regarding a fight situation), "Dude, If the trouble was with me...". These
kind of sentences are practically mantras: I've been hearing them so many times, thousands of times since
I've been born, with almost no variation in their structure.

It's hard to list all the spectacles: the "tubey" waves falling in a huge rock, so plain that it looks like a table
with a table cloth that reaches to its feet. Over it, it reflects like a mirror, and in the sides, when a fallen wave
goes away, it leaves strands of foamy water flowing, each time less foamy and thinner, like mini-waterfalls.

"Pegar jacaré" (to pick up alligators - glide in waves) until the end of the wave, falling in the dry sand, is also
an experience: A bit of alertness, so that you do not overturn, and at the same time a feeling of loosing ground
and some spins that end up with you almost upside down, lost inside of the big seafoam volume left by the
collapsing of the wave.

Swim to the deeper parts. Each day I'm swimming farther, each day less sedentary. I recall that once I used
to swim very far from the beach (years ago), so far that I was able to see the next beach after the rocky
peninsula that separate this beach from the next, in the next cove. I covered a distance that an athlete probably
would find a ridiculous feat, but I guess it was a huge feat for an average guy.
Something like 100 meters (109 yards) far from the shore, I guess. The farther from the shore, the better it is
to gaze the beach. People and houses start to turn into miniatures. The complete lack of integration between
the houses' architectural styles get much more noticeable. Houses almost glued together, but with a style
and color palette very very funky and diverse.
It's not like planned stuff, like a condo. Each house seem to have been made in a very different decade from the
others.

Salvador is turning into a weird city. An explosion of towers being built, entire neighbourhoods arising at the same
time, and each time more cars. Lots of original forest being cut down to give their place to condos. Places that
used to be basically made of dunes, now are full of weird houses, ugly, trashy, cheesy houses.
It's really sad.
An obsession for cars, for making everything using a car. Disabled people by free will. A mania that looks like
stuff from social climbers, emergent new riches. Status revolves around cars. The using and configuration of the
spaces is determined by cars, invaded by cars. And there are bottlenecks everywere. It's a plague.
This is nothing new, but it used to be a weaker, subtler thing.

But, fortunately, the best thing here is still the same: the sea.
I've heard that some beaches that were "usable" now are so crowded that are almost "condemned" to use in a
weekend, but in some others, this great interactive movie theater which is the sea is still the same, thanks god.

The sea.

To complete this writing, and noticing that the sea is for me a church, a gothic cathedral, a zen-budist temple,
a place to shut up my mouth and contemplate, gaze, a place to go and come back quiet, muted - without
exageration, I have a religious feeling each time a get quiet, silent the flux of thoughts to stop and gaze,
hear, smell, touch, push and get blinded by the sea and sunlight. I'm going to the beach almost everyday for
some weeks now. It's an indescribable "work of art" and dynamic, lively, strong, furious and delicate, and soft,
and that - I still don't know why - is great for washing and healing the soul. I'm still going to understand why
this happens one day, I hope.
And also for noticing this, here goes a song by a fluid, free, intense and dynamic composer, as much as the
sea (and pay attention, what a beautiful song - looks like life, with its waves spinning, breaking and collapsing
inside of us, smashing in the soul, as the waves in the sea):

(video is embedded above)

4 comentários:

Rominho disse...

Muito legal seu texto. Belo poético e profundo. Diante do mistério só nos cabe mesmo silenciar, viver a poesia que nos alimenta a alma. Abraço.

Athos Sampaio disse...

Com certeza ("...só nos resta silenciar").

Abraço,

Daniel Bruson disse...

Fiquei curioso pra dar uma olhada em como andavam seus desenhos e me deparei com esse texto que diz muito, apesar da imensidão do tema. Eu, muleque do interior, que lembro o que é contemplar quando os longos ciclos da vida me permitem mais uma vez chegar à entrada do mar, sentir a vertigem de sua atração serena, incomensurável e fatal. Grande abraço Athos!

Athos Sampaio disse...

Massa, Daniel!Tenho desenhado muito, mas não são desenhos que vou postar por agora.
É, você definiu bem. Atração serena. E "serenizante".

Grande abraço, Daniel!